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12.12.10

A substituta

Não. Ainda não fazia muito tempo que a mala desocupara a soleira da porta. Ela se foi num breve adeus e numa partida sentida. E ela partiu meu coração. Mas ela não era insubstituível. Não era nenhuma Linda McCartney, a companheira perfeita. Talvez fosse a mais imperfeita das mortais. Ou assim queria que fosse para sentir-me menos rejeitado. Palavras chulas me vieram a mente.
...
Mas assim como ela foi, outras vieram. Ninguém como ela. Perfeitinhas demais, eu diria. Não possuíam a mesma arrogância, a mesma ousadia. Até me perceber vasculhando motivos fúteis para despedir-me também delas. Transitórias. Passageiras. Ninguém pra permanecer no posto imaculado de ideal. Que grande besteira.
Logo, me vi apegado à última substituta que me restara. Era a solidão, minha nova companhia.

5.10.10

devaneio

A vida não é difícil de ser decifrada. O que desfavorece a interpretação é exatamente o que se guarda pra si mesmo. Os segredos, as coisas que não se fala em voz alta. É fácil saber o que é. Todo mundo sabe, mas ninguém diz. O que não se fala, não existe e deixa tudo mais difícil e mais interessante.

Conheço quem se alimente de dramas e quem os ignore. O primeiro grupo dramatiza coisas fáceis e deixa reservado para sua própria angústia o que não quer resolver. O segundo interioriza tudo para deixar explodir uma gastrite nervosa. Cada um tem o seu troféu.

Os seres humanos acreditam que a complexidade traz grandes realizações. Os obstáculos dão força. Quer dizer que evitar barreiras é sinônimo de fraqueza? Pode ser. Este texto é um devaneio. Uma vontade escrever qualquer coisa. Também não escrevo aqui o que não deve ser dito. E, por isso, não adianta de nada. Quem ver não terá vontade de ler nos espaços em branco.