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14.2.09

Como funciona o destino

Não existe uma forma de determinar como a vida funciona ou como as coisas acontecem ao nosso redor. Não sei se acredito em destino, ou karma. Não posso afirmar que sejam forças divinas que regem nossa existência. Ou se estamos simplesmente à deriva de nossas vontades, oportunidades e impulsos.

Independente disso, creio que cada um tem um exemplo extraordinário de algo inexplicável que ocorreu em sua vida. Como eu, que praticamente joguei dados com a sorte para decidir ir para Blumenau. Eu tinha meus motivos, mas a decisão se baseou em algo que supostamente poderia ou não acontecer. Foi uma aposta.

Outras pessoas vão lembrar de grandes oportunidades que surgiram após uma coisa chata. Acredito que, quem esteja olhando por nós, não nos dará coisas mais pesadas do que possamos suportar. E se tudo parece tão difícil, é porque sairemos fortalecidos de qualquer batalha. Sim, porque nós venceremos.

Talvez a vitória não seja como imaginamos. O prêmio não seja o almejado. Mas tudo chega a um fim. Dor, tristeza, angústia. Seja após uma boa noite de sono. Seja após uma conversa engraçada, um abraço apertado. Seja após anos de luta. O caminho é o que importa. O destino de nossas viagens é apenas um brinde no final.

As turbulentas trilhas que percorremos, os percalços: nós estamos indo para algum lugar. É fácil perceber. Olhe para trás e veja o quanto já andou. Nunca estivemos parados em um único ponto. E nem sempre tivemos companhia em nossas jornadas. E mesmo assim, veja onde chegamos. Provavelmente vai perceber que onde chegou não era o fim ainda. E é somente por isso que empreendemos novas sagas.

Somos nômades em nossa existência. Movimento e viagens são o que nos motivam. E com isso, nós mudamos e queremos sempre mais. Queremos mudar o cenário ao nosso redor. Mudar como as pessoas nos veem, e quem sabe, mudar quem somos.

Enquanto isso, a vida nos lança desafios. Nos aponta caminhos. E sim, teremos as orelhas puxadas, ouviremos sermões. E tudo isso faz parte. Cada um terá sua experiência diferente do outro, terá destinos diferentes, mas com a certeza de que todos experimentam a vida. Seja ela doce ou amarga. Mas claro, isso também depende de nossas interpretações. Conheço quem conte experiências de uma infância sofrida com sorrisos nos lábios, por saber o que isso lhe acresentou, a força que criou.

Está chovendo agora. Sei que muitos levantam as mãos aos céus para agradecer, enquanto outros morrem de tédio e alguns lamentam tudo que podem perder numa enxurrada. E ainda assim, amanhã, o sol vai brilhar. Uns vão reclamar do calor. Mas não você e eu.

Vamos aproveitar essa imensa montanha-russa sem fim que é nossa vida. Seremos aqueles que levantam os braços e gritam de animação. Que mantêm os olhos abertos em todo o percurso. Tendo aquela certeza que as peças se encaixam, que os destinos se cruzam, que vidas se entrelaçam. E o fim... bem, o fim só chega no final. E muita coisa vai acontecer até lá. Alegria alegria, meus amigos.

Existe tanto a ser feito. E o tempo nos é dado de graça. So, shall we take this ride? Let's go! Everything's gonna be allright!

29.9.08

discos na estante

Meu pai chegava em casa todos os dias depois das seis da tarde. Olhos cansados e a cara de bravo de sempre. Eu e meu irmão esperávamos o dia todo por aquele momento, quando minha mãe - sempre cheia de sacolas - e o meu pai vinham do trabalho.
Embora a nossa alegria fosse imensa - e a energia também - era um momento de silêncio. Engolíamos nossa euforia e descarregávamos o êxtase fuçando as coisas que minha mãe trazia do mercado. Depois, brincávamos bem quietinhos no quarto.
Mas o silêncio era regra apenas para nós. Na sala ao lado de onde estávamos, a música escapava pelos vãos das paredes de madeira. Meu pai ouvia seus discos preferidos - e proibidos para nós.
O que não se podia impedir era que nossos ouvidos se fechassem para aquele som. Foi daquela sala (nós chamávamos de "salinha") que escutei um dos refrãos que mais me integraram: "a tua piscina tá cheia de ratos/ tuas idéias não correspondem aos fatos/ o tempo não pára".
Impossível esconder a curiosidade aguçada pelas proibições. A sala consistia numa espécie de santuário, impenetrável por reles crianças. Sorte a minha que meus pais trabalhavam o dia todo. À tarde, sozinha em casa, sentava no chão e olhava disco por disco, letra por letra, mas não tinha coragem de ouvir (meu pai sempre teve olho clínico para mudanças na casa e a mão dele era muito pesada, como conferi em apenas duas vezes).
Lembro bem de uma capa amarela, com um rosto, com uma boca enorme, como que querendo rasgar um véu (era Goats Head Soup, dos Rolling Stones, que tinha Angie, uma das preferidas do meu pai). Gostava muito de outra de um moço loiro vestido como um selvagem - aliás tinha isso escrito em vermelho, era o nome do álbum dos Paralamas do Sucesso. O tênis branco do Cazuza na contra-capa e muitas outras imagens fazem parte da minha lembrança da salinha.
Os anos se passaram, fui crescendo e as portas do santuário ficaram menos pesadas. Eu podia entrar, tocar nos vinis e, quem diria, até ouvir uma música com meu pai. O ritual solitário noturno havia ganho mais uma adepta.
Hoje sei que quem me levou até lá foi o Cazuza. Tanta angústia e rebeldia, que o meu coração ainda ingênuo e limpo, não conseguia entender me chamavam muita atenção. Meu pai me contou que ele tinha Aids como quem revela um segredo. Lembro que não entendi, mas li a entrevista histórica nas páginas da Veja. Quando ele se foi, chorei escondida no quarto.
A salinha continua no mesmo lugar na "minha" casa. Sobreviveu às reformas frankensteins e ganhou uma nova estante. Permanecem lá as preciosidades da casa: livros e discos. Alguns dos primeiros peguei como herança antecipada, os segundos, não tive coragem. Mesmo depois de ganhar um toca-discos portátil, não podia mexer nas relíquias do meu pai. Ele já não cumpre mais o ritual na salinha, mas nunca esqueceu da música. Agora, ele assiste DVDs de shows no quarto, sempre sozinho e em silêncio. Eu faço o mesmo.
*Esse texto é uma homenagem a uma das principais influências da minha vida: meu pai.
** Eu e a Ana estamos em sintonia. Antes que eu visse que ela tinha postado uma homenagem à mãe dela, havia pensado nesse texto. Feliz coincidência.