30.9.08

Aconchego das palavras

Complica comigo


Sempre que eu presenteio alguém com um livro, costumo dizer que na verdade estou dando uma oportunidade de uma viagem ou a chance de assumir uma nova identidade. Porém, tendo um papel e caneta na mão, ou melhor, teclado e ciberespaço, por que nos resumir às poucas linhas de nós mesmos?

Perguntaram-me porque o blog era dramático e as autoras complicadas. Oras, se eu tenho tanto espaço à disposição, por que me limitar a uma única versão, a minha versão, da realidade?

Fiquei conversando com meus botões as maravilhas de uma boa ficção. Com tantas histórias baseadas em fatos reais fazendo sucesso, tentei lembrar quando foi a última vez que escrevi uma história inventada. Não faz muito tempo, mas conheço muita gente que fez isso até o primário. Depois disso, só os textos expositivos, que eram uma chatice.

A Carol tem mais sorte, pois fez uma pós em literatura e tem se divertido escrevendo contos (há! Escrevi esse texto antes de você postar o conto, veja só!!).

Eu olho, então, esse vasto mundo imaginário em branco, um pseudônimo à mão e questiono se devo me apegar ao real ou à ficção. Creio que aqui, tudo é permitido. Principalmente dar vazão ao sentimento, como diz o Bidê ou Balde.

Farei exercícios de loucura, falarei a pessoas que não me ouvem, contarei mentiras e despir-me-ei de mim mesma. Não quero ser eu o tempo todo. Quero sonhar coisas impossíveis, vou desabafar, vou criar. Enfim, vou escrever. Porque escrever me alivia o espírito. Escrever me tira os pés do chão.

Acho divertida a capacidade que as letras têm de tornar um fato real em uma bela história. Gosto de tirar as palavras das prateleiras, dar uma espanada, assoprar o pó e colocá-las em uso.

Eu gosto de complicar e embaralhar o mundo, que nem é tão certinho assim, e fazer dele um amontoado de palavras.

quando Marília enrubesceu

Marília sabia o conteúdo do envelope nas mãos do carteiro. Embora o polegar do homem de dedos largos cobrisse o logotipo, ela tinha ouvido que o papel seria vermelho e cheio de selos. Era essa a cor, era essa a carta que tanto esperava. Rasgou uma das bordas com as próprias mãos. Não podia adiar. Mas as primeiras linhas que fugiam do seu indicador desiludiram a mulher. Lá estava, escrita em tinta preta, a palavra ”lamento”. Foi suficiente para que as mãos cobrissem as lágrimas.

Largou o envelope. Olhou o relógio e lembrou-se da cliente das unhas de cereja. A memória sempre lhe facilitava o otimismo. Agarrou a bolsa com a mão direita tirou o cabelo do rosto e correu.

O dia passou devagar. Cliente café, gabriela, berinjela, até a azul surgiu de última hora. Colocou os óculos e leu na agenda: cereja – 17h. Os olhos colados nas unhas e no relógio.

Com quatro minutos de atraso – quase uma mão cheia – a cereja invadiu o salão. Lourdes, a cabeleireira, reprovou com o olhar a alegria indisfarçada de Marília. A manicure não tardou a arrumar a mesa, trocar a toalha e separar o esmalte cereja. Sorriu. Pegou as mãos lisas da cliente e começou a lixar suas unhas delicadamente. A cada raspada, tentava falar, mas nada saia.

Segurou com força a mão esquerda da cereja e, olhando para as unhas ainda descoloridas, conseguiu perguntar:
A senhora escreve filmes, né?
Sim - respondeu a outra e emendou – Já viu algum dos meus?
Não, mas ouvi falar.

A pergunta lhe cortou a garganta e quase lhe fez arrancar um pedaço de carne da cereja.

Suspirou e, por fim, conseguiu perguntar por Almodovar. Ela sabia que a cliente havia o conhecido numa dessas festas de artista. Sim, a resposta afirmativa reacendeu em Marília o desejo de ver sua vida na tela. Há meses terminara o roteiro de suas tragédias. Havia tudo lá. A separação, a morte da mãe, a solidão, o batom vermelho e a saia curta da filha numa esquina do centro. Ela havia conseguido o endereço da produtora do diretor pela jornalista de unhas amarelas, a mesma que lhe financiara o curso de roteiro.

O súbito e inesperado interesse da manicure por cinema cativou cereja. Ela lhe contou sobre o encontro com Almodovar e disse que ele estaria no Brasil no próximo mês para divulgar um de seus filmes. A notícia fez Marília tirar uma lasca da cliente. A mulher gritou e a toalha se encheu de vermelho. A mesma cor do envelope. Era o sinal.

Nos dias seguintes, Marília não pensou em outra coisa. Tirou pedaços e pedaços das mulheres que lhe entregavam as mãos. Lourdes só chacoalhava os cabelos e desdenhava daquele sonho. Enquanto isso, Marília era céu no purgatório.
Cuidou de si mesma, coisa rara. A última vez que fez as unhas foi no aniversário dela, quando Lourdes e as outras armaram uma festa. Comprou revistas sobre cinema e qualquer outra em que visse impresso o nome do diretor. Numa delas, atentou para as mãos daquele homem que segurava um prêmio e sorria enaltecendo as bochechas. Os dedos finos, elegantes, limpos, mão de quem trabalha pouco. Não havia esmalte, base. Apenas o cor-de-rosa natural. Eram aqueles membros que mudariam a sua vida, pensou Marília.

Ela mudou a cor do cabelo. O loiro vencido ficou renovado pelas mechas douradas. Vestiu-se de aquarela, escolheu o vestido estampado. Inspirou-se em Sua Mãe Também. Pintou-se, preencheu o branco. Era outra.

O dia por fim chegou. Foi a vez de Marília colorir as mãos. A cor era o vermelho. A mesma do envelope. Pegou o ônibus até a capital e, com um mapa desenhado por cereja, correu a cidade. Esbarrou com tantas cores que quase se perdeu. O cinza era triste e confuso. O amarelo, o verde e o vermelho revezavam-se muito rápido, antes que conseguisse completar as litras brancas.

Quando chegou no prédio de vidro, parou um minuto. Ajeitou o cabelo no reflexo, sorriu. Desceu os olhos às mãos. Ficou olhando para as unhas e viu uma imperfeição no indicador da mão direita, lamentou. Passou o polegar em cima e tentou disfarçar o arranhão, não conseguiu. Distraída, não percebeu quando uma multidão se acotovelava em suas costas. Virou-se com o barulho e viu câmeras de TV, mulheres de unhas mal-feitas com microfones nas mãos. Largou do dedo problemático e seguiu os repórteres.

Empurra, empurra. Com as mãos, Marília derrubou um homem alto, socorreu. Foi como cega sempre à frente, com os braços estendidos, cuidando da bolsa e da preciosidade que continha. Quase ficou de fora. Entrou enganada por que um homem de punhos enormes a jogara para dentro. Segurou-se na multidão.

Quando percebeu, estava diante de sua procura. Ela viu as unhas de homem próximas às dela, as mãos cuidadas e as mangas do casaco amarelo. Reconheceria aqueles dedos em qualquer lugar que fosse, pois os tinha revisado dezenas de vezes. Não teve tempo de ver as linhas, o futuro. Não pôde ver se estava cortada. Dezenas de mãos erguidas e um silêncio repentino. Uma câmera à frente, um obstáculo a mais. Tapou com uma das mãos a lente e avançou. Tropeçou e empurrou Almodovar sem querer. Tocou-lhe as mãos, parou. Sentiu a ponta dos dedos. Não olhou o rosto, não viu nada. Quis abrir a boca para nada.

O grandalhão pegou-lhe pelos braços e tapou-lhe o grito. Ela viu as mãos do diretor mostrando a saída. As lágrimas caíram, não pode controlar. Almodovar juntou a bolsa de Marília. Ela queria gritar para que as mãos tocassem o envelope. Conseguiu. Deixou que os braços a levassem.

Levantou o rosto e encarou o diretor. As mãos não importavam mais. Mirou o envelope e indicou com a cabeça. Ele entendeu. Recolheu o papel e tomou para si. Marília estava quase fora, mas viu quando ele entrou no elevador levando nas mãos a sua vida. Nunca mais lembrou do que havia escrito, agora detestava os dramas na tela.

* Este é o primeiro conto da minha vida. Era pra ter saído num livro, mas não deu certo. Troquei o final duas vezes. Quem ler, pode deixar um comentário sincero, por gentileza? Pode assinar como anônimo, não me importo.

Conversa com meus botões

... a curiosidade matou o gato ...

29.9.08

discos na estante

Meu pai chegava em casa todos os dias depois das seis da tarde. Olhos cansados e a cara de bravo de sempre. Eu e meu irmão esperávamos o dia todo por aquele momento, quando minha mãe - sempre cheia de sacolas - e o meu pai vinham do trabalho.
Embora a nossa alegria fosse imensa - e a energia também - era um momento de silêncio. Engolíamos nossa euforia e descarregávamos o êxtase fuçando as coisas que minha mãe trazia do mercado. Depois, brincávamos bem quietinhos no quarto.
Mas o silêncio era regra apenas para nós. Na sala ao lado de onde estávamos, a música escapava pelos vãos das paredes de madeira. Meu pai ouvia seus discos preferidos - e proibidos para nós.
O que não se podia impedir era que nossos ouvidos se fechassem para aquele som. Foi daquela sala (nós chamávamos de "salinha") que escutei um dos refrãos que mais me integraram: "a tua piscina tá cheia de ratos/ tuas idéias não correspondem aos fatos/ o tempo não pára".
Impossível esconder a curiosidade aguçada pelas proibições. A sala consistia numa espécie de santuário, impenetrável por reles crianças. Sorte a minha que meus pais trabalhavam o dia todo. À tarde, sozinha em casa, sentava no chão e olhava disco por disco, letra por letra, mas não tinha coragem de ouvir (meu pai sempre teve olho clínico para mudanças na casa e a mão dele era muito pesada, como conferi em apenas duas vezes).
Lembro bem de uma capa amarela, com um rosto, com uma boca enorme, como que querendo rasgar um véu (era Goats Head Soup, dos Rolling Stones, que tinha Angie, uma das preferidas do meu pai). Gostava muito de outra de um moço loiro vestido como um selvagem - aliás tinha isso escrito em vermelho, era o nome do álbum dos Paralamas do Sucesso. O tênis branco do Cazuza na contra-capa e muitas outras imagens fazem parte da minha lembrança da salinha.
Os anos se passaram, fui crescendo e as portas do santuário ficaram menos pesadas. Eu podia entrar, tocar nos vinis e, quem diria, até ouvir uma música com meu pai. O ritual solitário noturno havia ganho mais uma adepta.
Hoje sei que quem me levou até lá foi o Cazuza. Tanta angústia e rebeldia, que o meu coração ainda ingênuo e limpo, não conseguia entender me chamavam muita atenção. Meu pai me contou que ele tinha Aids como quem revela um segredo. Lembro que não entendi, mas li a entrevista histórica nas páginas da Veja. Quando ele se foi, chorei escondida no quarto.
A salinha continua no mesmo lugar na "minha" casa. Sobreviveu às reformas frankensteins e ganhou uma nova estante. Permanecem lá as preciosidades da casa: livros e discos. Alguns dos primeiros peguei como herança antecipada, os segundos, não tive coragem. Mesmo depois de ganhar um toca-discos portátil, não podia mexer nas relíquias do meu pai. Ele já não cumpre mais o ritual na salinha, mas nunca esqueceu da música. Agora, ele assiste DVDs de shows no quarto, sempre sozinho e em silêncio. Eu faço o mesmo.
*Esse texto é uma homenagem a uma das principais influências da minha vida: meu pai.
** Eu e a Ana estamos em sintonia. Antes que eu visse que ela tinha postado uma homenagem à mãe dela, havia pensado nesse texto. Feliz coincidência.

O exemplo de dona Maria


Mais alguns anos e dona Maria se aposentava na antiga Telepar. Mas eis que o capitalismo selvagem mostrou-se cruel. A onda neoliberal resolveu desaguar no Brasil e a Telepar foi privatizada. Uma pena. Milhares foram demitidos. Inclusive dona Maria, beirando os 50 anos, quatro filhos para criar.

No começo foi difícil. Não apenas pela questão financeira, mas dona Maria não sabia parar quieta. Resolveu fazer trabalho voluntário. Numa creche. Na favela. Ia três vezes por semana. Queria mudar o mundo e foi convincente. No final do ano foi contratada. Então assumiu a vocação. Trabalhava de dia e fazia magistério à noite.

Não contente, no ano seguinte resolveu fazer vestibular. Saiu da creche, mas não antes de se apegar a um bebê e traze-lo para a família. Não tinha paciência para cursinho, então estudou em casa. Passou em segundo lugar no vestibular para Pedagogia. Era a mais velha da turma, mas nem ligou. Estudou os quatro anos, fez novas amizades, ralou muito e se formou como a melhor da turma.

Passou no primeiro concurso que viu pela frente, pegou uma das duas vagas ofertadas para pedagogo na Prefeitura. Hoje trabalha com famílias carentes, faz um curso na igreja e cuida dos cinco filhos e marido.

Realmente, tenho muito orgulho da dona Maria, minha mãe. Mas a questão não e essa. A questão é o que se aprende com isso. Quantas vezes reclamamos de nossas vidas, nos acomodamos ou nos vemos estagnados em nossos 20 e poucos anos? Não podemos esperar por uma rasteira do destino aos 50 anos para fazermos o que gostamos.

Mas nunca é tarde para mudar. Se a dona Maria consegue, todos conseguem. Todo dia é dia para mudar. Dia para resolver. Dia de agir. O mundo não vai parar para ajeitarmos nossas vidas. Felizmente, todos somos agraciados com as mesma 24 horas por dia para tomar decisões e cabe a nós usa-las sabiamente.

Comece hoje a traçar seu destino.

27.9.08

Conversa com meus botões

Quando estamos todos no mesmo bar(co), tudo fica mais divertido!!